Mostrando postagens com marcador Psicologia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Psicologia. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 16 de março de 2011

A face contemporânea da repressão sexual, de Fabio Veronesi (Parte 2)


Um deles é o fato facilmente constatável de que uma grande quantidade de jovens consome drogas – álcool principalmente – para se soltar em eventos sociais. Cito os jovens para detectar a precocidade dos efeitos da repressão à sexualidade e expressividade humana. A maioria das pessoas tem histórias sobre coisas que fizeram alcoolizadas que não teriam coragem de fazer se estivessem sóbrias, principalmente relatando experiências sexuais.

Outro exemplo, que vivenciei como aluno do curso de Psicologia de uma universidade federal (supostamente de qualidade superior), é o fato de que em nenhum momento do curso, nenhuma disciplina, nenhum professor, nenhuma palestra ou congresso tratou amplamente sobre a questão da sexualidade. Fica a dúvida: será que ela não tem relevância na esfera psíquica do ser humano? Como pode um curso de Psicologia não dar atenção especial a esse tema?

A explicação pode estar em que para estuda-lo profundamente seria necessário quebrar o tabu sobre a sexualidade, questioná-la nas próprias pessoas que a ensinam, falar abertamente sobre sexo, sobre prazeres e dificuldades de cada um, de cada casal. Tais coisas não cabem nas instituições oficiais. O Estado e a Família estão perfeitamente pactuados na opinião de haver necessidade de repressão à livre sexualidade dos jovens. Ambos por questões de controle e segurança. Um cuida da polícia oficial e outra da polícia de costumes. São complementares. Não se sabe qual é mais poderosa em sua capacidade de nos conter. Uma instituição de ensino oficial não irá tratar profundamente sobre o tema da sexualidade, nem nos cursos onde isso seja fundamental, como o caso da Psicologia, porque não lhe interessa que este deixe de ser tabu.

Encaminhando essa análise para além do institucional, do oficial, indo para o institucionalizado, o habitual – como homem, sei que vivemos numa sociedade em que os homens contam entre eles muitas piadas sobre machismo e sexualidade com temas como traição ou “cornice”, mulher-gostosa-burra-objeto e homossexualidade não assumida. Dificilmente, entretanto, homens têm uma conversa íntima e sincera com seus amigos homens sobre suas formas de sentir prazer, suas dificuldades e anseios sexuais, sobre ejaculações precoces ou “brochadas”, sobre sua própria homossexualidade ou sobre seus padrões sexuais. O tema da sexualidade também é tabu entre amigos homens. Claro que não todos. Claro que há exceções. Mas são exceções.

Ampliando mais um pouco esse quadro também percebemos e constatamos sem nenhuma dificuldade o quanto são raros os diálogos abertos sobre esses mesmos temas dentro da Família. Pais e filhos não falam abertamente sobre sexo. Ou melhor, até conseguem falar sobre sexo em geral, mas dificilmente falarão sobre sua própria sexualidade. Pai e mãe poderiam ensinar sexo para suas filhas e filhos conversando abertamente sobre como fazem sexo, do que gostam e não gostam, como buscam seus orgasmos, se estão satisfeitos um com o outro, etc. Conversando, pais poderiam ensinar suas filhas sobre o universo sexual masculino e mães aos seus filhos sobre o universo sexual feminino. O Tabu do Incesto é fachada que esconde os tabus ainda existentes sobre o sexo.

A máxima expressão da repressão sexual do séc. XXI são as revistas pornográficas expostas nas bancas de jornal, os sites pornográficos da internet, os filmes pornográficos na tv a cabo, a seção de pornografia da vídeo locadora e tudo mais que disfarça os tabus acima citados. O modelo sexual pornográfico é a máxima expressão da objetivação do homem e da mulher, associada à dessensibilização das emoções. A definitiva separação entre sexo e amor, a completa substituição do ser pelo ter, do sentir pelo possuir. O caminho para a impotência orgástica (e se complementam a estas idéias, as expostas no capítulo “A impotência orgástica do homem”). A nova cara da velha repressão sexual.

Diante desse quadro, chama atenção a grande quantidade de pessoas que, em determinado ponto de suas vidas, simplesmente desistem de sua sexualidade, deixam de lado, vão “empurrando com a barriga” suas dificuldades, tem relações medíocres ou ficam longos períodos sem ter relações sexuais. De uma forma ou de outra, desistem de lutar por uma vida sexual ativa, plena e sadia. Sutil e insistentemente a repressão sexual consegue fazer seus estragos, deixar marcas, minar a pulsão vital.

Por tudo isso se torna fundamental falar, ainda hoje, de Revolução Sexual, sem a qual (conforme já dizia Reich) nenhuma revolução social se sustenta por muito tempo. Ser sexualmente revolucionário hoje em dia significa não ceder a essa apatia resultante de anos de confusão gerada pelo paradoxo neoliberal. Significa jogar fora papéis e posturas impostos pelo modelo pornográfico. Significa resgatar a espontaneidade, emotividade e ludicidade que nos foi cerceada, permitindo que nossa criança interior possa finalmente amar, se divertir e ter prazer com os jogos sexuais.

Copyleft
creative commonsCópia livre desde que respeitada a autoria. Não permito alterações do conteúdo ou uso para derivar outras obras. Comercialização só com minha prévia autorização.
Obra registrada na Creative Commons by Fabio Veronesi

Por hoje é só!
Que o GADU esteja com vocês!
.'.HERR THOR.'.

domingo, 13 de março de 2011

A face contemporânea da repressão sexual, de Fabio Veronesi (Parte 1)


A partir da estreita ligação entre machismo e repressão sexual, surge a necessidade de buscarmos aprofundar a discussão sobre o tema da repressão sexual. Porém, é importante notar que nessa busca não há referência do passado que possa nos ajudar no presente. Não há no que já foi dito, algo que possa dar resposta às nossas ânsias atuais. São historicamente inéditos os conflitos pessoais relacionados à sexualidade que afligem os seres humanos do séc. XXI, assim como é inédito o que é preciso dizer sobre eles. Algo que ainda está por se descobrir, revelar.
A influência da ideologia neoliberal sobre os costumes, conseguiu criar um paradoxo sem precedentes na história da repressão sexual nas sociedades humanas. O liberalismo ““liberou”” o sexo. Mais que isso – o transformou em mercadoria de consumo, produto, “fatia de mercado”. Paradoxalmente, porém, o processo de educação nessas mesmas sociedades, continua reprimindo a livre e espontânea expressão sexual das crianças.



Nesse sentido vale citar um capítulo do livro “A família de que se fala e a família de que se sofre”, de Angelo Gaiarsa, intitulado “Brincar de guerra pode, mas de amor não”, onde ele fala de uma experiência caseira vivida em sua própria família. A cena é a seguinte: reunião de família, vários parentes na casa, as crianças brincando na sala enquanto alguns adultos assistem televisão. As crianças brincavam de bandido e polícia, armas fictícias, atirando uns nos outros. Os adultos reclamavam quando alguma criança ficava na frente da tv, fazia barulho ou corria demais, mas nada que perturbasse o equilíbrio de uma família normal. Em dado momento as crianças pararam de correr pela casa e um dos pais comentou que elas já estavam havia algum tempo em silêncio. Descobriu-se que estavam reunidas atrás do sofá, brincando de se tocar, ver suas diferenças corporais, se cheirar, tirar a roupa, conhecer seus corpos. A televisão foi desligada, pais e mães entraram em estado de alerta sobre o que estava acontecendo com seus filhos, passaram a lhes dar atenção, inventaram outras brincadeiras e sutilmente acabaram com a brincadeira de exploração de corpos surgida espontaneamente na livre interação das crianças.
É importante perceber que essa cena retrata um tipo muito sutil de repressão à livre expressão da sexualidade, baseado numa mudança de interesse induzida. Um próximo ponto na escala da repressão vai revelar que, caso seja necessário, os pais farão uso de castigos e repreensões mais severas.


O resultado desse quadro onde crianças reprimidas durante toda infância são “liberadas” a partir da adolescência (primeiro não pode, depois “tem que”) são adultos que, mesmo tendo maior possibilidade de manter relações sexuais (se comparados a adultos que viveram no século passado), não conseguem viver plenamente sua sexualidade. Isso cria um novo paradoxo: faço sexo à vontade e mesmo assim permaneço insatisfeito. No século passado a insatisfação se explicava pela proibição, pelo impedimento. E agora? Como se explica comer, comer, comer e permanecer insatisfeito? As pessoas continuam sexualmente mal resolvidas e a possibilidade de se fazer sexo mais facilmente com maior número de pessoas, não está facilitando encontros amorosos. Pelo contrário, ela atrapalha as pessoas que buscam estabelecer uma relação mais íntima e emotiva.
Reich define o orgasmo pleno como aquele em que se consegue entrega emocional plena, o que significa amar plenamente a pessoa com quem se relaciona sexualmente, sentindo todo corpo envolvido nesse encontro. Para derreter-se e misturar-se ao outro é preciso aquecer os corações e não somente os genitais.

O ser que ama é um ser frágil, no sentido de que é alguém que abre o peito. Ao revelar seu amor arrisca-se à rejeição, fica mais vulnerável, pode se machucar. Precisa de um meio seguro para se expressar. Precisa confiar para ser pleno.
É exatamente nesse ponto que age a repressão sexual peculiar ao início do séc. XXI dentro das sociedades de ideologia predominante capitalista neoliberal: criam um ambiente hostil a esse ser que se expõe e tenta se abrir para o amor. Um ambiente social competitivo, individualista e fugaz, onde sexo é associado à posse, poder ou mercadoria. Teoricamente, as pessoas podem manter relações sexuais sadias, plenas, caso queiram. Mas, na prática, continuam a ter sérias dificuldades pessoais para entregar-se às emoções amorosas que levariam a um orgasmo pleno. A intimidade necessária para essa entrega se consegue com a permanência e o aprofundamento da relação. No contexto da nova repressão, as pessoas pulam de uma relação para outra, ficam entre relações, trocam o prazer da intimidade pelo prazer da conquista.
Sexo continua a ser tabu. Os exemplos estão em todas as partes.

(continua...)

Por hoje é só!
Que o GADU esteja com vocês
.'.HERR THOR.'.



sábado, 26 de fevereiro de 2011

Viva com seus outros sentidos, não só com a Visão - Parte 2

O mito da beleza interior

“O mais profundo é a pele”
–Paul Valéry
Na adolescência, me orgulhava por dissociar beleza interna e beleza externa. Eu pensava que poderia ter nascido com qualquer rosto, que minha mente era uma coisa separada e que estava acoplada ao meu corpo por puro acaso. Eu mal prestava atenção à minha corporalidade e, por efeito, olhava os outros como tendo um corpo, não como sendo um corpo. Eu não me sentia um corpo e por isso buscava abstrações e sentimentos etéreos nos outros. “Beleza interior” era um tema recorrente, principalmente nas minhas tentativas de conquista. Nada melhor do que valorizar a beleza interior diante de uma menina absurdamente linda, não é mesmo?
Depois de muito tempo, paralelamente ao meu retorno ao corpo por meio da polirritmia, um insight veio à tona: beleza é sempre exterior. Não, eu não poderia ter outra face, outra voz ou outro jeito de andar. À medida que mudo, minha voz muda, meus traços se alteram, meus trejeitos manifestam minha mente. Experimente olhar para qualquer pessoa e perguntar: “Ela poderia ter outra voz que não essa? Outra cara que não essa?”. Quanto mais conhecemos alguém, mais respondemos com um objetivo “Não”.
Ainda que a beleza provenha de qualidades subjetivas, tal interior não só é exterior a nós como se exterioza no corpo do outro em gestos, palavras, faces e olhares. Dada uma certa configuração cognitiva e emocional (um mundo interior), não é qualquer corpo que vai surgir. É como se não houvesse sequer uma união entre corpo e mente, como se de fato nunca tivesse existido separação alguma. Um só ser que se expressa e com o qual nos relacionamos em diferentes linguagens: sons da voz, redes de pensamentos, fluxos emocionais, toques da pele, luminescências da imagem. Corpo e mente não são duas substâncias e tampouco uma. Não dois, não um.
Eis a razão para a completa integração dos cinco sentidos, como se eles fossem um só órgão perceptivo que usasse várias membranas para captar diferentes camadas de estímulos e vibrações: ouvido para som, olhos para luz e assim por diante. O filósofo Maurice Merleau-Ponty, que estudou detalhadamente o fênomeno da percepção, afirmou: “Nenhuma experiência humana se limita a um dos cinco sentidos. Os sentidos se decifram uns aos outros”.
Em nosso cotidiano, não vemos o corpo com atenção. Ignoramos a corporeidade e ultrapassamos a pele, o que é fácil. Bundas perfeitas, ombros delineados, costas que atestam virilidade, bocas que nos provocam… Cada parte do corpo é vista tal qual um objeto inerte, como se a alma estivesse em outro lugar. Mais ainda, cada parte do corpo nos leva para fora, para nosso desejo ou para a investigação da mente ali escondida: “Quem é ele?”. Justamente devido a esse equívoco, perdemos acesso ao próprio corpo e ganhamos apenas superfícies artificiais em nosso campo sensorial. Não haverá diferença entre a bunda da revista e aquela da mulher na nossa frente enquanto buscarmos pela alma em outro lugar, enquanto pensarmos que o espírito está escondido.

Ficar no nível da pele é que é raro. Não precisar tirar os olhos das pernas para ver a alma. Lembrar, a cada instante, que uma pessoa não tem um corpo, é um corpo; que a mente não fica dentro da cabeça, mas na barriga, no pescoço, mãos e tornozelos. Saber que todos estamos nus, completamente acessíveis o tempo todo. Criar relações com os poros, sem precisar ir para outro lugar. Ver a face do outro como necessária, não contingente (“não poderia ser de outro modo”), faz com que comecemos a amá-la, assim como ficamos felizes quando percebemos que nosso passado não poderia ter sido diferente, caso contrário não seríamos o que somos – experiência que Nietzsche chamou de amor fati.
Aquele que é considerado “feio” muitas vezes toma como refúgio a noção de beleza interior sem saber que ela é uma armadilha que consolida e toma como natural sua suposta falta de beleza. Ora, nada falta ao cego pois é de sua natureza não ter olhos! O feio assim nos parece porque estamos procurando algo que não é dele, como se tentássemos, sem sucesso, projetar nossos desejos de beleza em seu rosto, quando deveríamos apenas olhar e receber o que ele tem a oferecer.
As conexões humanas acontecem de acordo com nossos condicionamentos: alguns seres causam aversão em uns e apego em outros. Aquele que nos parece horroroso é desejado por outra pessoa. Um homem aborígene não é nojento em si mesmo pois se o fosse não seria procurado por uma mulher de sua comunidade para uma noite de sexo.
Sem a noção de beleza interior, a natural beleza de todas as aparências é revelada. A profunda alma do mundo está na superfície: tudo é luminoso, nítido, vivo.

A estética como cura da anestesia

“Nothing can cure the soul but the senses”
–Oscar Wilde
Em uma palestra sobre a percepção estética e sobre como nos relacionamos com as obras de arte, o crítico e professor Jorge Coli falou sobre écfrase, a atitude de “deixar a obra de arte falar”, enxergá-la e descrevê-la como ela surge, sem significações adicionais, opiniões ou o clássico “gosto / não gosto”. Segundo ele, com essa prática, a obra nos revela muito mais do que poderíamos suspeitar a princípio, e transborda significados muito mais profundos do que aqueles que rapidamente nela projetaríamos. Em vez de entrar para nossa coleção de objetos, encaixotada em nosso espaço interior, a obra de arte abre nosso corpo, expande nosso mundo.
Cada vez que Jorge Coli pronunciava “obra de arte”, eu ouvia “pessoa” (confesso que a palavra exata era “mulher”) e imaginava como seria uma relação de écfrase mútua. Na verdade, isso é bastante simples. Por generosidade, chegamos ao outro e dizemos: “Não vou sair daqui nas próximas horas, me mostre seu melhor”. Porque essa frase nunca de fato sai em palavras, ela não tem a pressão que aparenta carregar. Qualquer pessoa adora quando tem espaço para se mostrar, para exercitar suas qualidades, jogar seu charme, ter sua beleza admirada. O outro quer ser usufruído, quer se oferecer inteiro.
O que deixa bonita e irresistível cada parte do corpo do outro não são apenas seus próprios traços ou seu entorno, mas o modo como ela se oferece a nós. A boca, bonita nela mesma, fica ainda mais bonita se vista em relação ao queixo, nariz, bochechas, pescoço e os fios de cabelo que invadem os lábios; e totalmente bela quando pede por nosso toque, se abre e chama nossa própria boca.
Para liberar a beleza do outro, não basta saber olhar, ouvir, cheirar, tocar ou lamber. É preciso abrir espaço e convidá-lo a se oferecer a nós. Você se lembra da felicidade e do prazer que sentiu quando enfim conseguiu soltar suas qualidades diante de alguém? Ora, quer presente melhor do que deixar seu parceiro sentir o mesmo? Muito melhor do que oferecer é possibilitar o espaço para que o outro ofereça. Eis a generosidade insuperável: deixar que o outro seja generoso. Desse modo, ainda que ambos recebam, o foco, a energia e a felicidade estão em oferecer.
Na verdade, o que acontece por trás da generosidade é um processo de abertura e descentramento. Quando o foco está em receber, ironicamente nosso corpo se fecha e continuamos insatisfeitos – nunca conseguimos receber o suficiente. Onde não há generosidade, brota carência. No corpo que se fecha, as experiências dos cinco sentidos se empalidecem. Anestesiados, somos capazes até de matar pois quando não sentimos aumentamos o contato com o outro até o machucarmos. Por não vivenciarmos dor em nosso corpo, causamos dor aos outros.
O sintoma mais comum de um casal em crise é a anestesia mútua. Cada parceiro se torna incapaz de realmente se abrir e sentir o outro. Além disso, fica quase impossível olhar o outro em traços puros, sem que cada gesto ou olhar nos remeta a incontáveis lembranças e sensações aflitivas. A ausência de écfrase é inseparável do esquecimento da generosidade: perdemos a disposição em dar crédito, dar tempo, dar espaço, dar respeito, dar nascimento ao outro. Na falta de generosidade, nenhuma beleza é possível. Aquele ser bonito que nos atraía se transforma em um monstro que agora nos causa nojo e aversão.
Sem que precisemos analisar e reconfigurar o conteúdo da crise, sem resolver os vários problemas que causaram a apatia, podemos atacar diretamente a anestesia. Em vez de pensar ou conversar (como pode existir diálogo sem abertura?), usamos o corpo. Anestesia é falta de estesia. Simples assim. No entanto, o que sentiria um corpo doente se lhe retirassem os anestésicos? O maior impedimento à abertura é o fato de que ela inicialmente será uma abertura à dor. Fruir uma obra de arte é fácil, mas ninguém quer ter uma sensação estética da dor. Por isso, à medida que a crise piora, aumentamos a dose de morfina, sem saber que estamos nos distanciando ainda mais da solução.
Sofrer, contudo, não libera o sofrimento. Vamos sentir nossa própria dor apenas para que possamos sentir a dor do outro. De fato, elas são uma e mesma coisa. Ao focar em como liberar a dor do outro, já estamos operando com generosidade. Já estamos abertos e alegres pelas pequenas alegrias que causamos. Com esse espaço, ele novamente solta suas qualidades, seu charme. Não é por acaso que o outro volta a ficar bonito e a nos atrair. Generosidade dá tesão… Ignoramos as demandas de nosso autocentramento e simplesmente nos abrimos. Caso contrário, vamos perder muito tempo pedindo e buscando por aquilo que nossa contração nos faz desejar. Muito mais fácil se conseguirmos dissolver o autocentramento, raiz de nossos problemas.
E então, durante a crise, sem respeitar regras e coerências, empurramos o outro para baixo do chuveiro. Em meio a brigas constantes, desânimo e intolerância, nenhum dos dois toparia tomar banho juntos, assim, do nada. Mas nosso corpo, por mais que relute, deseja o toque. Com a água correndo, deixamos que a mão, não a mente, faça o trabalho. E confiamos na sabedoria natural do outro corpo para expor sua dor. De novo, o mesmo processo: ele vai soltar o que tiver e nós abraçamos o que vier. Até que a dor cesse e ele siga oferecendo sua arte, que é o que sabemos fazer melhor.
Por hoje é só!
Que o GADU esteja com vocês!
.'.HERR THOR .'.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Crie um blog para ela(e) por Gustavo Gitti


Já faz um tempo que me delicio com os textos de Gustavo Gitti em seu blog http://nao2nao1.com.br/ , que se descreve como um blog sobre relacionamentos lúcidos (para homens e mulheres). 
Esse texto sobre como usar um blog como um mimo de sedução e amor entre o casal é de 2006, mas continua atual, afinal, no meu caso, quem começou meu blog foi a minha pet Hope e estou adorando, o seduzido foi eu.
Divirtam-se e reflitam com o texto do Gustavo.
Por hoje é só!
Que o GADU esteja com vocês!
.'.HERR THOR.'.

Crie um blog para ela(e)
É simples, rápido e dá um ótimo resultado a longo prazo. O título pode ser “Declarações, desejos e loucuras” ou “Amores virtuais” ou “Sai da internet e vem logo pra cama!”. Eu considero o próprio http://www.blogger.com/ o melhor entre os gratuitos. É fácil de configurar e a interface é muito intuitiva. Lembre-se apenas de não deixar o blog público (ou deixe… pensando bem, uma declaração pública também é muito interessante!).
Fiz isso pela primeira em 2003, com o sistema de sites do Yahoo. Eram páginas soltas, uma por mês, imitando a estrutura de um blog. A idéia era expandir nosso espaço de amor para locais digitais, fazer uma cama virtual. Já troquei de sistema e de nome, mas o mantenho ativo até hoje.
O blog é interessante tanto para os escritores compulsivos quanto para os que não ousam fazê-lo tão frequentemente. Se você escreve bem, por que não organizar tudo isso como uma grande declaração para sua mulher? Se não escreve, o blog funciona como um lembrete e um motivo a mais para tentar. Afinal, você não vai deixar seu blog desatualizado, não é mesmo?
Ao desenvolver o hábito de escrever sobre a relação, você começa a refletir sobre ela, a contemplá-la cuidadosamente. Cada momento vivido ganha uma poética adicional. No dia seguinte daquele sexo fenomenal, você dará de presente um poema, um surto literário, um texto com gemidos e sussurros. No dia seguinte da briga, talvez um pedido de desculpas, talvez uma cantada ou o agendamento de um encontro inesperado. Depois daquele jantar, você relata tudo com detalhes, cena por cena, para ela reviver aquilo. Com isso, algo curioso começa a ocorrer. Para relatar, para escrever, para ver a poesia, o olhar fica mais afiado e as próprias experiências ganham mais densidade e profundidade. A simples presença do blog dá um espaço a mais para o amor penetrar nos fenômenos.
Vocês podem fazer um blog escrito a dois ou um unidirecional. De qualquer forma, nem sempre escreva para ele(a). Tente escrever sobre ele(a), escrever para você mesmo ou escrever de modo mais impessoal como num ensaio qualquer. Utilize todos os discursos possíveis. O blog é bem diferente do email pois o email quer ser lido e o blog espera. O email invade, o blog deixa-se invadir. O email se perde, o blog faz arte da vida.
Para as mulheres: use esse espaço para jogar tudo aquilo que não cabe na relação, escreva para desafiá-lo, testá-lo, provocá-lo. Para os homens: seduza-a (“writing is sexy”), elogie-a (treine-se nessa arte!), relate cada cena para depois viver outras com mais lucidez e presença, conquiste-a a cada texto, faça carinho nela com palavras (isso melhora a qualidade de seu próprio carinho com o corpo).
Use o blog para descrever suas fantasias sexuais. Descreva com detalhes o que deseja fazer, como gosta, do que gosta, quando gosta. Use-o para celebrar sua relação. Uma homenagem a um amor que nos transcende, que não pertence a nenhum casal. Quando vocês dois morrerem, o blog seguirá nesse mundo virtual, simbolizando o amor impessoal que não cessa…
Por hoje é só!
Que o GADU esteja com vocês!
.'.HERR THOR.'.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Trecho de Wilhelm Reich - A Função do Orgasmo

 Wilhelm Reich (1897-1957)

... A "liberdade religiosa" é uma ditadura quando não caminha de mãos dadas com a liberdade da ciência; pois, se este é o caso, não há livre competição na interpretação do processo da vida. Deve decidir-se de uma vez por todas se "Deus" é uma figura divina, barbuda, todo-poderosa, ou se representa a lei cósmica da natureza, que nos governa. Só se Deus e a lei da natureza são idênticos, pode haver entendimento entre a ciência e a religião. Um passo apenas separa  a ciência e a religião. Um passo apenas separa a ditadura  de um representante terreno de Deus, e a ditadura de um salvador de povos, enviado pela divindade.

A "moralidade religiosa" é ditatorial quando confunde pornografia os sentimentos naturais da vida. Fazendo-o, eterniza a marcha sexual e arruína a felicidade natural no amor, quer tenha a intenção de fazê-lo, quer não. É preciso elevar um protesto enérgico quando são rotulados como imorais aqueles que determinam o seu comportamento social tomando por base leis interiores em vez dos códigos externos compulsivos. Um homem e uma mulher são marido e mulher não  porque tenham recebido o sacramento, mas porque se sentem  como marido e mulher. A lei íntima, e não a lei exterior, é a medida da verdadeira liberdade. O fanatismo moralista é o inimigo mais perigoso da moralidade natural. O fanatismo moralista não pode ser combatido com outra forma de  moralidade compulsiva, mas tão somente com o conhecimento da lei natural do processo sexual. O comportamento moral natural pressupõe o livre desenvolvimento do processo  natural da vida. Por outro lado, caminham de mãos dadas a moralidade compulsiva e a sexualidade patológica.
(...)
... aqueles que não têm fé no processo vital, ou que a perderam, estão à mercê da influência subterrânea do  medo à vida, que dá origem à ditadura. O processo vital é  inerentemente "racional". Torna-se "distorcido" e grotesco se não lhe é permitido desenvolver-se livremente. Quando se "distorce" o processo vital, pode-se apenas engendrar o medo. Somente o conhecimento do processo vital pode dissipar o medo...
"O homem é um ser desamparado
quando lhe falta conhecimento;
o desamparo causado pela
ignorância é o fertilizante da ditadura"


"A FUNÇÃO DO ORGASMO"
1ª Edição, 1975 - 10ª Edição
PREFÁCIO, páginas 24 e 25
 Nova York, Novembro de 1940
[Editora Brasiliense] 

Em 1940, no meio da Segunda Grande Guerra, um homem, um alemão, se levanta para falar aberta e claramente (para os padrões da linguagem da época) sobre SEXO!
Não é uma vergonha que num Brasil, livre e sem guerras esse mesmo tema seja tão arraigado? Isso não é um contracenso? Uma Falsa Moralidade? Por que? Todos nós vemos o sexo explícito no carnaval, semi explícito nos filmes e novelas, e o sexo natural que acontece na casa de cada um todos os dias... mas não temos CORAGEM de falar sobre isso! Além disso, não nos dispomos a aceitar a sexualidade do próximo! Não nos dispomos a aceitar homossexuais, lésbicas, BDSM, swing e outras formas de sexo que é natural sim! Porque satisfaz os desejos e necessidades de cada um!
Há contracenso maior do que você ouvir um praticante habitual de BDSM dizer que "Odeia homossexuais"?
Se você está lutando pela sua liberdade sexual, e apresentando o BDSM ao mundo para que este seja aceito e respeitado... como  você pode discriminar outro grupo que, da mesma forma, busca aceitação e respeito?

Reich pregava que esse FANATISMO SEXUAL que vivemos ainda hoje no Brasil, só pode ser combatido com o CONHECIMENTO. Conhecimento este, que só pode advir da manifestação da informação. Pode-se dizer que as pessoas "falam mal e comentam maliciosamente e preconceituosamente" o que elas não sabem... não conhecem!
Então, podemos acreditar que o conhecimento dissipa o medo! Já que todo ser humano tem medo do desconhecido. E é este medo que nos leva a viver numa "Ditadura Sexual", onde o natural e saudável não realiza suas necessidades vitais e você acaba por procurar relações fora do casamento, amantes, e prostitutas (os), pois não tem coragem de assumir que o sexo baunilha de "papai e mamãe" de luz apagada não satifaz suas necessidades, fantasias e desejos sexuais!

"O homem é um ser desamparado
quando lhe falta conhecimento;
o desamparo causado pela
ignorância é o fertilizante da ditadura"

Em teoria, não vivemos mais essa Ditadura desde 1985... a Ditadura Militar acabou, mas a Ditadura Sexual permanece! Ela reprime, oprime e nos obriga a ações e atitudes "subterrâneas", vivendo uma duplicidade na sua vida, dividindo-se em duas pessoas... o cara que curte e pratica BDSM... e o professor, advogado, vendedor, jardineiro, marceneiro, gerente... RESPEITÁVEL!
Porque temos que nos esconder atrás de "codinomes", e esconder o rosto quando falamos sobre a nossa... A MINHA vida sexual?
Por que isso aflige tanto o cidadão comum?
Por que ele não vai cuidar de sua própria vidinha?
Ouvi outro dia um ditado popular que me fez rir...
"Deus deu para cada um uma vidinha
se você não gosta da sua
Não venha se intrometer com a minha!"
KKK
Para ser respeitável, no Brasil, não podemos ter "pinto". Não podemos falar de sexo. Não podemos viver o sexo. E muito menos GOSTAR de sexo.
Sem contar os dois pesos e duas medidas!
Se um cara "pega todas" ele não é respeitável, mas é razoavelmente aceito em determinados círculos, mas se uma mulher tem o mesmo comportamento é chamada de "puta" pra baixo!
Bom, comecei falando que a psicologia nos diz que o ser humano tem medo de desconhecido.

Então, nós, praticantes sérios do BDSM, enquanto grupo, que vejo se formando entre casais que andei "fuçando na net", devemos nos esforçar para tornar conhecida nossa filosofia de vida. Pois, em teoria, só assim o medo e o preconceito se dissiparão!

Lutarei por isso nesse Blog! E espero a ajuda de todos os "irmãos" BDSMicos e afins, para tornarmo-nos amigos e respeitáveis, bem como nossos estilos de vida!

Por hoje é só!
Que o GADU esteja com vocês!
.'.HERR THOR.'.

Para que servem bonecos e bonecas? Por Contardo Calligaris

Quando li na Folha de São Paulo dia 10/02/2011 o ótimo artigo do psicanalista italiano radicado no Brasil Contardo Calligaris e um de meus últimos posts foi um protesto contra as mulheres de plástico, esse artigo sobre como nunca alcançaremos a perfeição estética da boneca Barbie e seu namorado metrossexual Ken (praticamente uma bichona, que é zoado até por outros brinquedos em Toy Story 3, acima), e da nossa vontade de mutilá-los, é perfeito.
Agora fiquem com a lucidez de Contardo Calligaris.
Por hoje é só!
Que o GADU esteja com vocês!
.'.Herr Thor.'. 
É graças aos bonecos que a criança pode mutilar,
despedaçar e queimar os ídolos que lhe são propostos
KEN, O companheiro de Barbie, chega aos 50 anos e não envelhece: a camiseta de sua última versão anuncia, sem falsa modéstia, que ele continua sendo "o namorado perfeito".
Tenho mais simpatia por Barbie que por Ken. Barbie foi detestada pelas feministas por ser incansavelmente consumista e narcisista. No entanto, ela foi uma batalhadora, competindo com os garotos em todos os campos do saber e do trabalho. Ken, em compensação, sempre me pareceu desmiolado por sua própria convicção de ser o objeto irresistível do desejo de todos -homens e mulheres (tudo bem, concordo: ele se redimiu um pouco em "Toy Story 3").
Enfim, o aniversário de Ken está sendo celebrado com um novo boneco, Sweet Talking Ken (Ken fala doce), que contém um sistema de gravação e fala: você aperta seu coração e grava a frase que ele repetirá quando você soltar o botão. Nos EUA, a propaganda diz: Ele é o namorado perfeito para todas as ocasiões. Por quê? Porque ele diz tudo o que você quer que ele diga.
De fato, apresentei o boneco a uma menina de 12 anos, que aprovou: os garotos não têm muito para dizer, melhor a gente escolher o que eles vão falar. Será que ela tem razão? Eis o caso que fez que, no fim de semana passado, eu me interessasse por Ken.
Um casal de conhecidos me ligou dos EUA, preocupado. Eles ofereceram o novo Ken à filha de oito anos, e logo constataram que o irmão (quatro anos mais velho) brincava com ela feliz (fato raro). Ótimo, eles pensaram -até perceberem que o jogo funcionava assim: o rapaz se enfiava no closet, gravava uma fala de Ken, saía e soltava o botão (e o verbo) para Barbie e a irmã ouvirem. Das frases que os pais escutaram, a mais simpática era: "Vou te encher de porradas, sua vaca".
Aparentemente, a menina achava graça, mas os pais não gostaram e mandaram o rapaz escrever cem vezes
"Devo respeitar minha irmã e todas as meninas". Como se não bastasse, logo naquele dia, os pais verificaram o histórico do uso da internet pelo filho e descobriram que ele tinha descarregado três vídeos mórbidos, em que uma garota, presumivelmente australiana, tortura uma boneca Barbie -quem tiver estômago, confira: migre.me/ 3PE9X. O rapaz confessou gostar de suplícios aplicados a bonecos e bonecas.
Recomendei um psicólogo e sugeri que o rapaz mostrasse os vídeos a seu terapeuta (se o colega fizer seu trabalho como manda o figurino, a garota australiana receberia um dia a visita preventiva de um serviço social de seu país).
Agora, patologias à parte, por que será que maus-tratos e torturas aplicados em bonecos e bonecas são estranhamente populares?
Barbie é um modelo impraticável para as meninas e um sonho impossível para os meninos. Mudando os gêneros, o mesmo vale para Ken (que também é vítima de suplícios pela net afora). Barbie e Ken, em suma, são ideais inatingíveis, e essa seria uma boa razão para odiá-los: eles estariam sendo supliciados por um bando de frustrados que não conseguem ser como eles ou que não encontram parceiros como eles.
Concordo em termos: bonecas e bonecos não servem apenas para propor ideais deprimentes de tanto que eles estão fora do alcance da espécie humana, eles servem para tornar esses ideais acessíveis. Como assim? Simples: é graças aos bonecos que cada criança pode mutilar, despedaçar e queimar os ídolos que lhe são propostos.
Ao longo da infância, tive bonecos e soldadinhos lindos; mais de uma vez decidi e jurei que eu os conservaria intatos. Mas nunca consegui. Misteriosamente, minhas mãos bem intencionadas sempre acabavam os ultrajando brutalmente. Por quê? Suspeito que os bonecos nos sirvam para nos livrar do estereótipo de nossa própria infância feliz (a infância que todos os adultos parecem desejar por nós): não sou nem serei perfeito como um boneco, até porque, de qualquer forma, olhe só, Barbie está queimando na cruz e Ken está passando por apuros parecidos. Que alívio!
Ken e Barbie Sado-Maso
De 12 a 28 de fevereiro, no shopping Pátio Higienópolis, em São Paulo, Ken será homenageado na exposição "Barbie & Ken - O Casal Perfeito". Antes de passear por lá, só para se lembrar de que "perfeito" é um jeito de falar, procure, na internet, as obras dos anos 90 (David Levinthal, Carol McCullen), em que Barbie era ultrajada e deturpada, como talvez seja normal e bom que aconteça com bonecas e bonecos.

Por hoje é só!
Que o GADU esteja com vocês!
.'.HERR THOR.'.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Filosofando sobre o BDSM

O BDSM é o invólucro de um tipo de relação complicada, a relação D/s. Tem gente que afirma existirem tipos diferentes de BDSM... tem gente que afirma os tipos diferentes de Dominação... e tem gente que afirma os diferentes tipos de submissão.
Será que dá pra diferenciar tantas coisas? Ou na realidade é o SER HUMANO que se diferencia? E portanto, as relações que eles estabelecem?
O BDSM é um só... regido pela máxima do SSC. (ponto)
As relações estabelecidas... estas sim, se modificam!
Com mais gritos, mais falas mansas, mais olho no olho, mais castigo, mais dor, menos dor, mais humilhação, mais gritaria, menos carinho, mais liturgia, menos sexo, mais hierarquia, mais sexo...
Mais disso e menos daquilo... cada relação se forma de maneira diferenciada com ingredientes também diferenciados... a grosso modo, podemos compará-las a um bolo... muito açúcar e pouca farinha, desandam o bolo, da mesma forma que pouco fermento pode solá-lo. Assim é tão difícil ver, no mundo BDSM relações de D/s que durem anos... elas acabam “desandando” com o tempo, pois passa-se a se acrescentar muita baunilha... ou muita pimenta. Se tem muita baunilha a sub vira sua faxineira, doméstica... se tem muita pimenta vira seu saco de pancadas.
Eu gosto de bolo com um toque de baunilha, mas também gosto de chocolate com pimenta! E também gosto de canela e de menta!
No final das contas eu diria que o BDSM não tem categorias, mas tem diversas formas de ser encarado! Ou melhor... 3 níveis de profundidade. LIGHT, SOFT e HARD. Cada um destes níveis, provavelmente, poderia ser re-re-re-dividido... mas como abordo por um lado filosófico-psicológico, prefiro manter em 3 níveis. 
LIGHT:
É o BDSM de internet, de curiosos e de fetiche. Não que as 3 coisas sejam iguais. Mas os curiosos ou aqueles que entram em chats para ouvir sobre BDSM, em sua maioria, chegam a sessões virtuais ou pelo telefone e se chegam a sessões reais, no máximo, a uma ou duas sessões únicas, que vão carregar como lembrança pro resto da vida. São poucos os Tops que começaram assim, na verdade não conheço nenhum. E poucos os subs que foram iniciados dessa maneira e continuam no meio... alguns, poucos, sortudos, que iniciaram com Dominadores sérios. E cá entre nós... Dominadores sérios não andam em salas de bate papo na madrugada... a não ser por curiosidade... ou insônia!
Por que coloco os “fetichistas” nesse primeiro bloco? Simples. Para eles o BDSM é só para apimentar o sexo. A maioria é casado(a) e tem sub ou subs com quem se encontram em motéis para sessões. (ponto) Quer dizer, ponto mesmo, fim. Acaba ali. Sem manter relação verdadeira. É só sexo. Sexo apimentado. Mas sexo. Top e sub voltam para casa levando consigo marcas e lembranças que 99% das vezes jamais se repetirão!
SOFT:
É o BDSM praticado como Filosofia de Vida. E não falo só das relações 24/7, nem das relações de namo D/s, falo também das relações, que, mesmo sendo ocasionais, têm como princípio o ser 100% Top, ou 100% sub... ou 100% switcher. (risos) A questão que levanto é que vejo por aí diversos Dom’s com e-mails alternativos de sub, Domme e outras coisas... Será um caso de duplicidade ou triplicidade de personalidades? Ou, arrisco-me... é sem vergonhice mesmo! Outro ponto interessante sobre a Dominação é que alguns “Dom’s” casados, têm hora pra chegar em casa... a patroa os domina! E por falta de capacidade para dominar em casa, procura subs desavisadas para supostamente “Dominar na rua”.
Deixo aqui um link do blog “Surto paranóico das submissas de alma”, onde as “meninas” tratam exatamente disso! E de maneira muito interessante! Façam boa leitura!
Na outra face da moeda está o sub. Que tem que ter a clareza de que carregar a coleira de um Top e seu nome, é como se carregasse o próprio Top o dia todo, portanto, se cometer um erro, disser uma mentira ou ultrapassar os limites, envergonha não só a si mesmo (a), mas também ao seu Dono (a). Mas eu bato na tecla de que uma submissa não é uma escrava, pois o escravo era comprado e não tinha direitos, já a submissa é uma serva, a servidão é opcional, você escolhe quem você serve, e se um dia quiser deixar de servir, é só entregar a coleira. E sim, o sub tem direitos sim! Na verdade para que o “C” do SSC funcione, o sub tem que ter o direito de pedir água. De parar a sessão!
HARD:
É o BDSM praticado sob 2 circunstâncias:
Na primeira – é o BDSM praticado de forma Light, tanto faz se é só o sexo em sessões esporádicas ou via internet, ou se é com uma prática vivencial; mas que chega às vias do Sado-Maso. Por isso é hard. Pelo “peso”, pela dureza das marcas, pela quantidade da dor. Hard porque tem muito peso, muita dor.
Na segunda – é o BDSM praticado de forma Soft, mas com uma vida 24/7 de D/s. Não se enganem. Entendam do que falo. Seria eu, Top, dominando cada ato, cada segundo da minha pet. Desde o momento em que acorda até o tempo em que dorme! Seria a prática da Liturgia Ritual diariamente. Seria o ensinar constante, seguido do prêmio ou da punição. Adestramento. Teoria de Skinner, que tratou amplamente da psicologia comportamental ou Behaviorista. Onde se trabalha com o Reforço Positivo ou Negativo. No Reforço Positivo – o prêmio. No Reforço Negativo – a punição ou castigo.
É realmente o outro extremo da linha! Seria, por exemplo as Hierarquias levadas ao extremo de se ter 2 ou mais subs dentro de casa e um poder sentar no sofá, pois tem uma hierarquia mais alta e o outro não, pois pertence a uma hierarquia mais baixa.
Seria o “casar” com a sub e mante-la em lingerie e coleira o dia todo, vivendo um “Dogplay” as 24 horas do dia! Conheci, certa feita, um casal assim. Ela era linda, longos cabelos ruivos e olhos verdes, o corpo cheio de curvas nos lugares certos, doce e meiga. Depois de algum tempo, voltando ao mesmo Clube, vi o Top novamente e de cara perguntei se não tinha dado certo com aquela moça. Ele surpreso falou que tinha e me apontou uma coisinha no chão. Realmente uma coisinha... um feixe de palitos, cabelos escuros e curtos, toda encolhida. Então perguntei se ela não era ruiva. Ao que ele me disse que ela tinha apanhado bastante por mentir sobre o tom de seu cabelo, mas que agora havia aprendido. Aquele homem conseguiu “matar” aquela alma submissa. Espremendo-a de tal forma, submetendo-a de tal forma, que nada restou.
Todos os Hard são assim?
Não! Ou provavelmente não! Na verdade não conheço muitos que deram certo... nem aqui no Brasil, nem na Europa.
Mas a verdade é que eu não sou o “Papa” no assunto, assim como ninguém o é! Não existe cartilha! Nem Manual! Por que? Simples. Porque a filosofia-psicologia comportamental varia, portanto, isso quer dizer que o comportamento humano varia! E assim... voltamos ao início... o BDSM é um só. Regido pela máxima do SSC!
Mas o comportamento individual é que vai “dar o tom” do que é são. Para mim e para a minha pet, uma chicotada de chicote único, com a minha força toda nas costas, não é nada são, pois, com certeza traria um corte, sangue e uma cicatriz. Mas... não tem pets que adoram olhar suas marcas, seus hematomas e “medem” as cicatrizes... do mesmo jeito que os adolescentes “medem” o pênis?
A questão final é a seguinte, se refletirmos sobre todas essas teorias: ninguém tem poder, envergadura ou legitimidade moral para “legislar” sobre a sexualidade humana. Todo mundo tem direito a ter a sexualidade mais feliz e prazerosa, que puder ou quiser, de acordo com seus limites.
Se o casal é feliz sendo "baunilha", fazendo papai e mamãe de luz apagada, vai fundo!
Se o casal segue a filosofia de vida BDSM, pois assim sente mais prazer, siga em frente!
Se você acredita numa filosofia de vida onde se inclui o swing... por que não? É problema seu! Manda ver!
Se você é homossexual ou bissexual, melhor viver isso do que esconder-se disso! Viva!
Qualquer que seja o seu modo de ver e viver o sexo... é seu. E portanto, legítimo! Siga-o!
O que realmente importa? REALMENTE...
Importa que o casal se respeita, se ama, tem diálogo, é cúmplice e aceita um ao outro. E se sente mais prazer numa relação dessa forma do que de outra... ótimo!
Seus momentos íntimos não devem ser vistos como “amorais”, “imorais” ou como “perversão”, e sim como uma faceta da sua sexualidade.
E cada um de nós tem direito á exploração da sua sexualidade. Mesmo dentro desse país carola e sentencioso em que vivemos!

ATENÇÃO!
Gostaria de alertar aos leitores que se houver divergências ou discordâncias a respeito do que aqui foi postulado, Existe uma página chamada "Embasamento", onde exponho toda a teoria psicológica, filosófica e sociológica na qual me embaso para dizer o que digo!
Assim, se não concordarem... discordem dos teóricos! Mas, por favor, mantenham a educação, mesmo ao discordar!

Por hoje é só!
Que o GADU esteja com vocês!
.'.HERR THOR.' .& Hope  Subway